segunda-feira, 12 de outubro de 2009
o bobo da corte chamou o aletarório número cinco e disse: "você está sempre errado"
porque o layout é de hospital e as palavras são o melhor remédio
o bobo da corte chamou o aletarório número cinco e disse: "você está sempre errado"
Postado por Gabriel às 23:29 2 comentários
Um homem deitava naquele ponto de ônibus que ficava em uma avenida, sozinho ao relento. Dormia um sono velado na manhã que começava
[seus sonhos não eram bons]
Ela desceu do próximo ônibus que parou, ruidosamente fechando as portas e arrancando. Bateu palmas.
[curioso aquelas palmas simplórias o acordarem se nem o barulho dos carros ao redor o conseguia]
a mulher tinha um sorriso no rosto bonito de nariz comprido. olhava ele com insistência e placidez. Seus olhos negros eram serenos e pareciam acolher mais que uma cama quente.
Ele não precisou esfregar os olhos pra acordar daquela vez, a presença dela era tão forte. Acalmava e inquietava ao mesmo tempo.
Demorou um tempo até alguma voz se manifestar e tudo o que foi dito foi
"vem comigo"
e ele foi, carregando sua mochila nas costas, subindo o morro ao lado dela e nem por um momento ele pensou em questionar o destino a que se dirigiam.
Postado por Gabriel às 23:21 2 comentários
Primeiro tocaram as notas de uma música que se chamava Zero na minha cabeça, e elas todas só repetiam a todo momento que eu era nada. Me senti mal, estômago apertando, queria não ser assim.
Ignorado na soleira de uma janela psicante: - oi? você está aí?
- sim - veio a resposta, lacônica até onde o significado a palavra consegue alcaçar.
Não veio mais nada, mesmo estando lá.
Então senti saudade do tempo que eu era uma cor pintada na soleira daquela janela, e não uma poeira que não é digna nem mesmo de ser espanada.
Postado por Gabriel às 19:15 2 comentários
A noite de outono cheirava a lamento. O vento gelado doía em suas articulações. Ele tremia, mas não era por causa dos doze graus que o termômetro há um quarteirão dali marcava. Tremia por causa do choro, da agonia que pulsava junto com seu sangue.
Afrouxou a gravata vermelha num gesto desesperado e se sentou no beiral do mirante. No alto daquele morro, via a cidade piscando lá embaixo, o leve burburinho de carros ainda conseguia chegar ali, bem mais suave que o normal.
Suspiro. Fungada
Havia uma certa inquietação, misturada à desordem dos pensamentos. Não sabia o que fazer, mas não queria não fazer nada. Chegava até a doer. Gritar, correr, pular? Só sabia que devia esperar, porque tudo o que aconteceu de ruim pra ele significava que tinha um encontro marcado. A qualquer momento ela chegaria pra lhe fazer a tão prometida visita.
Ficou parado por muito tempo, muitas luzes se apagaram na cidade e a fome também veio lhe fazer companhia, roncando na sua barriga. Mesmo assim esperou.
Então, em certo momento reparou que ela estava li ao seu lado, com o vestido preto, salto alto e meias púrpuras. Os cabelos ruivos dançavam no ar, emoldurando seu rosto quadrado e forte, pálido e bonito.
- Você demorou demais – ele comentou com voz embargada.
Ela retirou um cachecol da bolsa e enrolou no pescoço. Continuou calada por um tempo e então falou sem olhar para o outro.
- Eu estou com você desde que você viu os dois se beijando. Só que você estava tão ocupado com tanta dor que não me notou...
Ele abaixou a cabeça, contorceu os músculos da face. A menção àquela cena lhe espetava as entranhas.
- Então agora acabou? – perguntou num fiapo de voz
- Sim – ela sorriu serenamente – acabou. Foi tudo um desperdício, é claro. Eu estava certa desde o começo e você ainda quis me desafiar.
- Eu... – hesitação cobria os olhos dele, a dúvida dançava ali - ... eu tinha tanta certeza...
Ela balançou a cabeça e descruzou as pernas, achando uma posição mais confortável na grama.
- Todo mundo sempre acha que está certo, grande mal da humanidade esse. Agora que você sabe, me diga: no que você estava errado?
- Não quero falar sobre isso. Acabe logo com isso.
- Não me vire a cabeça mocinho – ela estendeu a mão e voltou a cabeça dele para si, segurando pelo queixo – isso também faz parte do fim. Antes de mais nada, eu vou ter o seu orgulho.
Apertou os olhos com força em desagrado, derrotado. Abriu-os: havia ódio e revolta.
- Eu achava que existia amor de verdade, ok? – cuspiu ríspido.
- Muito bem, estamos começando. Continue.
- Eu a amava. Ela era a coisa mais especial do mundo – soluço – o sorriso, os jeito de virar a cabeça, o modo como ela era gentil e ao mesmo tempo engraçada. Foi a pessoa mais simples que eu conheci. Não era a mais bonita de todas, não tinha nada físico que deixasse um homem louco de tesão. Mas eu via beleza nela toda. A alma e o corpo daquela mulher eram um só pra mim. Eu tinha tesão nela. Ah como tinha. E então um dia ela olhou pra mim. Como eu podia imaginar que uma mulher tão especial iria querer algo comigo? Eu, tão normal, sem nada de mais...
- Mas ela olhou, não foi?
- Sim...
- E você a amou mais ainda por isso...
- Sim... até que você apareceu.
- Uma bela noite aquela, tenho que confessar. Foi bom ter semeado desilusão sabe... fazia tempos que não encontrava um campo fértil como a sua mente...
Ele lançou um olhar de ódio para aquela criatura maldita. Ela rebateu o olhar com uma simples risada.
- Uma festa memorável aquela – continuou a mulher – muitos corações partidos ali. Muitos caquinhos para a minha coleção.
- Mas você ainda tinha que me juntar à sua coleção.
- Coleções nunca acabam, meu caro. Principalmente uma como a minha. Uma nova peça é sempre bem vinda. E você, tão apaixonado, não poderia deixar de chamar minha atenção. Mesmo estando sozinho num canto, bebendo um suquinho sem uma gota de álccol, eu pude ver aquele brilho nos olhos. Só de olhar neles eu podia ver os cabelos encaracolados da sua amada e os lábios finos, as sardas. Ela estava escrita em você. Um amor profundo.
Então ela riu, gargalhou, porque sabia o que o homem ao seu lado acabara de pensar: um amor profundo que acabou. E aquele pesar a deleitava.
Ele abaixou a cabeça. Lembrou-se de como a mulher estranha que agora estava ao seu lado havia puxado conversa naquela noite a três messes atrás, tentado seduzi-lo.
- E você me rejeitou – ela completou o pensamento.
- Sim, e como poderia fazer outra coisa? Nada mais tinha graça perto da...
Apertou os olhos com força. Não iria pronunciar aquele nome.
- Sim, sim, isso é verdade. Então não restava mais nada senão destruir sua ilusão romântica do jeito mais demorado. Mas no fim valeu a pena. Acho que foi até mais divertido.
Vaca.
- Eu sei que você está me xingando em pensamento, seu tolo. Não adianta tentar esconder isso de mim. A maioria de vocês é previsível demais pra mim.
Ele a continuou parado, mórbido. Deixou que ela terminasse de falar. Só havia silêncio. Ele olhou para a mulher, viu que ela ainda o encarava.
O homem implorou.
- Termine logo com isso, por favor.
Um sorriso.
- Termine você.
Ele encolheu a cabeça, escondeu-as nas mãos.
- Então você começou uma conversa sobre amor, e como ele não existe e que é tudo uma ilusão. – a voz do homem era mecânica nesse ponto, não havia mais sinal de emoção – E eu tive que discordar e falar que eu amava de verdade e que era amado de verdade. Então começou isso tudo.
- E eu ganhei a aposta. – ela completou entusiasmada. Bateu duas palmas animadas e se pôs de pé.
- Parabéns pra você – ele completou, sarcástico. - Agora logo leve o que você quer.
Ela ergueu os braços pra ele, sorrindo.
- Venha, venha.
Ele a encarou com um olhar incrédulo. Hesitou. As mãos da mulher alcançaram as do homem e ela o puxou com a mesma facilidade uma menina travessa põe de pé sua boneca.
- Então sua vida será minha... – ela disse.
Ele fechou os olhos
- ... porque os lábios dela se selaram com os de outra pessoa, como eu falei que seria.
Então ela se aproximou dele, segurou seus ombros e se ergueu na ponta do sapato.
A última coisa que ele viu foram os cabelos ruivos revoltos daquela mulher, a última coisa que sentiu foram os lábios tocando sua testa. Então não havia mais nada.
Preto: FIM.
Aquele homem não se lembrava de nada quando acordou na sarjeta do mirante da cidade. Não sabia quem era, porque estava ali. Mal sabia falar. O resto dos seus dias se resumiram à mendicância e confusão de pensamentos, preocupado com a próxima refeição e onde iria dormir. Uma sobrevida, sua vida lhe havia sido roubada.
Postado por Gabriel às 23:54 2 comentários
Havia um jogo de cartas que duas pessoas jogavam. Dessas duas pessoas uma era muito importante e ambas se destacavam no meio da multidão.
O jogo fazia algo com cartas na vertical e diagonal, eles tinham muitas delas nas mãos e dipunham-nas em algum lugar que eu não podia ver (uma mesa? o chão?) de um modo violento, como que travando uma batalha. Em seus rostos, estranhamente, havia diversão plena.
Eu quis participar daquele jogo. As expresões de seus rostos me hipnotizavam e eu queria aquilo.
Pedi para que me ensinassem e simplesmente me ignoraram, um nada flutuante.
O jogo continuava.
Pedi novamente e dessa vez disseram que não.
-isso não é pra você.
-porque não?
- simplesmente não é, aceite isso.
Num momento senti vontade de chorar.
No outro raiva.
Então mesa, chão, cartas: virei tudo com um grito revoltado. O mundo sacodiu como num terremoto que se passa numa cabeça alterada.
Depois abri os olhos para a realidade.
Postado por Gabriel às 16:18 2 comentários
Olho,
O sentidos me afetam e então sou mesquinho,
não mais humano.
òdio,
me injeta inveja garganta abaixo e me transforma,
no que não sou
ócio,
transforma a mente em oficina vazia
e me sinto menos: um zero
Postado por Gabriel às 18:35 2 comentários
A sensação de estar no topo do mundo
é a glória de ver tudo do alto.
e o medo de cair.
Postado por Gabriel às 08:05 2 comentários