bulimia não funciona com palavras

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

E ficou ali sentado tentando enfiar o dedo na goela para ver se vomitava. Mas se nem bile havia ali, como iria sair algo que contasse?

Acabou engolindo a própria mão e se deu um nó.

Devia ter ido comer antes.

cena rápida

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

o bobo da corte chamou o aletarório número cinco e disse: "você está sempre errado"

Primeiro encontro

Um homem deitava naquele ponto de ônibus que ficava em uma avenida, sozinho ao relento. Dormia um sono velado na manhã que começava

[seus sonhos não eram bons]

Ela desceu do próximo ônibus que parou, ruidosamente fechando as portas e arrancando. Bateu palmas.

[curioso aquelas palmas simplórias o acordarem se nem o barulho dos carros ao redor o conseguia]

a mulher tinha um sorriso no rosto bonito de nariz comprido. olhava ele com insistência e placidez. Seus olhos negros eram serenos e pareciam acolher mais que uma cama quente.

Ele não precisou esfregar os olhos pra acordar daquela vez, a presença dela era tão forte. Acalmava e inquietava ao mesmo tempo.

Demorou um tempo até alguma voz se manifestar e tudo o que foi dito foi

"vem comigo"

e ele foi, carregando sua mochila nas costas, subindo o morro ao lado dela e nem por um momento ele pensou em questionar o destino a que se dirigiam.

conlusão a que chegamos

terça-feira, 28 de julho de 2009

A noite de outono cheirava a lamento. O vento gelado doía em suas articulações. Ele tremia, mas não era por causa dos doze graus que o termômetro há um quarteirão dali marcava. Tremia por causa do choro, da agonia que pulsava junto com seu sangue.
Afrouxou a gravata vermelha num gesto desesperado e se sentou no beiral do mirante. No alto daquele morro, via a cidade piscando lá embaixo, o leve burburinho de carros ainda conseguia chegar ali, bem mais suave que o normal.

Suspiro. Fungada

Havia uma certa inquietação, misturada à desordem dos pensamentos. Não sabia o que fazer, mas não queria não fazer nada. Chegava até a doer. Gritar, correr, pular? Só sabia que devia esperar, porque tudo o que aconteceu de ruim pra ele significava que tinha um encontro marcado. A qualquer momento ela chegaria pra lhe fazer a tão prometida visita.

Ficou parado por muito tempo, muitas luzes se apagaram na cidade e a fome também veio lhe fazer companhia, roncando na sua barriga. Mesmo assim esperou.

Então, em certo momento reparou que ela estava li ao seu lado, com o vestido preto, salto alto e meias púrpuras. Os cabelos ruivos dançavam no ar, emoldurando seu rosto quadrado e forte, pálido e bonito.

- Você demorou demais – ele comentou com voz embargada.

Ela retirou um cachecol da bolsa e enrolou no pescoço. Continuou calada por um tempo e então falou sem olhar para o outro.

- Eu estou com você desde que você viu os dois se beijando. Só que você estava tão ocupado com tanta dor que não me notou...

Ele abaixou a cabeça, contorceu os músculos da face. A menção àquela cena lhe espetava as entranhas.

- Então agora acabou? – perguntou num fiapo de voz

- Sim – ela sorriu serenamente – acabou. Foi tudo um desperdício, é claro. Eu estava certa desde o começo e você ainda quis me desafiar.

- Eu... – hesitação cobria os olhos dele, a dúvida dançava ali - ... eu tinha tanta certeza...

Ela balançou a cabeça e descruzou as pernas, achando uma posição mais confortável na grama.

- Todo mundo sempre acha que está certo, grande mal da humanidade esse. Agora que você sabe, me diga: no que você estava errado?

- Não quero falar sobre isso. Acabe logo com isso.

- Não me vire a cabeça mocinho – ela estendeu a mão e voltou a cabeça dele para si, segurando pelo queixo – isso também faz parte do fim. Antes de mais nada, eu vou ter o seu orgulho.

Apertou os olhos com força em desagrado, derrotado. Abriu-os: havia ódio e revolta.

- Eu achava que existia amor de verdade, ok? – cuspiu ríspido.

- Muito bem, estamos começando. Continue.

- Eu a amava. Ela era a coisa mais especial do mundo – soluço – o sorriso, os jeito de virar a cabeça, o modo como ela era gentil e ao mesmo tempo engraçada. Foi a pessoa mais simples que eu conheci. Não era a mais bonita de todas, não tinha nada físico que deixasse um homem louco de tesão. Mas eu via beleza nela toda. A alma e o corpo daquela mulher eram um só pra mim. Eu tinha tesão nela. Ah como tinha. E então um dia ela olhou pra mim. Como eu podia imaginar que uma mulher tão especial iria querer algo comigo? Eu, tão normal, sem nada de mais...

- Mas ela olhou, não foi?

- Sim...

- E você a amou mais ainda por isso...

- Sim... até que você apareceu.

- Uma bela noite aquela, tenho que confessar. Foi bom ter semeado desilusão sabe... fazia tempos que não encontrava um campo fértil como a sua mente...

Ele lançou um olhar de ódio para aquela criatura maldita. Ela rebateu o olhar com uma simples risada.

- Uma festa memorável aquela – continuou a mulher – muitos corações partidos ali. Muitos caquinhos para a minha coleção.

- Mas você ainda tinha que me juntar à sua coleção.

- Coleções nunca acabam, meu caro. Principalmente uma como a minha. Uma nova peça é sempre bem vinda. E você, tão apaixonado, não poderia deixar de chamar minha atenção. Mesmo estando sozinho num canto, bebendo um suquinho sem uma gota de álccol, eu pude ver aquele brilho nos olhos. Só de olhar neles eu podia ver os cabelos encaracolados da sua amada e os lábios finos, as sardas. Ela estava escrita em você. Um amor profundo.

Então ela riu, gargalhou, porque sabia o que o homem ao seu lado acabara de pensar: um amor profundo que acabou. E aquele pesar a deleitava.

Ele abaixou a cabeça. Lembrou-se de como a mulher estranha que agora estava ao seu lado havia puxado conversa naquela noite a três messes atrás, tentado seduzi-lo.

- E você me rejeitou – ela completou o pensamento.

- Sim, e como poderia fazer outra coisa? Nada mais tinha graça perto da...

Apertou os olhos com força. Não iria pronunciar aquele nome.

- Sim, sim, isso é verdade. Então não restava mais nada senão destruir sua ilusão romântica do jeito mais demorado. Mas no fim valeu a pena. Acho que foi até mais divertido.

Vaca.

- Eu sei que você está me xingando em pensamento, seu tolo. Não adianta tentar esconder isso de mim. A maioria de vocês é previsível demais pra mim.

Ele a continuou parado, mórbido. Deixou que ela terminasse de falar. Só havia silêncio. Ele olhou para a mulher, viu que ela ainda o encarava.

O homem implorou.

- Termine logo com isso, por favor.

Um sorriso.

- Termine você.

Ele encolheu a cabeça, escondeu-as nas mãos.

- Então você começou uma conversa sobre amor, e como ele não existe e que é tudo uma ilusão. – a voz do homem era mecânica nesse ponto, não havia mais sinal de emoção – E eu tive que discordar e falar que eu amava de verdade e que era amado de verdade. Então começou isso tudo.

- E eu ganhei a aposta. – ela completou entusiasmada. Bateu duas palmas animadas e se pôs de pé.

- Parabéns pra você – ele completou, sarcástico. - Agora logo leve o que você quer.

Ela ergueu os braços pra ele, sorrindo.

- Venha, venha.

Ele a encarou com um olhar incrédulo. Hesitou. As mãos da mulher alcançaram as do homem e ela o puxou com a mesma facilidade uma menina travessa põe de pé sua boneca.

- Então sua vida será minha... – ela disse.

Ele fechou os olhos

- ... porque os lábios dela se selaram com os de outra pessoa, como eu falei que seria.

Então ela se aproximou dele, segurou seus ombros e se ergueu na ponta do sapato.

A última coisa que ele viu foram os cabelos ruivos revoltos daquela mulher, a última coisa que sentiu foram os lábios tocando sua testa. Então não havia mais nada.

Preto: FIM.

Aquele homem não se lembrava de nada quando acordou na sarjeta do mirante da cidade. Não sabia quem era, porque estava ali. Mal sabia falar. O resto dos seus dias se resumiram à mendicância e confusão de pensamentos, preocupado com a próxima refeição e onde iria dormir. Uma sobrevida, sua vida lhe havia sido roubada.

Aleatório nº 7

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Olho,
O sentidos me afetam e então sou mesquinho,
não mais humano.

òdio,
me injeta inveja garganta abaixo e me transforma,
no que não sou

ócio,
transforma a mente em oficina vazia
e me sinto menos: um zero

Aleatório n° 5

terça-feira, 30 de junho de 2009

A sensação de estar no topo do mundo
é a glória de ver tudo do alto.

e o medo de cair.

Do verbo pedir:

domingo, 24 de maio de 2009


Peça.




Certa vez, rei de todos os quebra-cabeças dirigiu-se a Habacuc e disse:

- Você não é uma peça, rapaz. Não há lugar no jogo pra você. Fique fora.

Ouvir isso o entristeceu enormemente, mas havia uma chama no seu interior que queimava a teimosia e força de vontade.

- Você está errado – retrucou ao rei, com um olhar desafiante nos olhos, a centelha da humanidade brilhando em seus olhos.

O jogo era uma abismo negro gigantesco e infinito. Ali, luzes piscavam e se misturavam, o ar pulsava e vibrava a fumaça branca percorria o espaço em correntes vaporosas. As peças dançavam naquele escuro, ao som de uma música primordial que mudava e se misturava a outras e recomeçava e batia. Havia um tambor essencial por trás de tudo, o coração da existência que fazia Tum Tum de acordo com o ritmo da música. E as peças vibravam ao som da música e do grande coração e faziam o que melhor sabia fazer, a razão para qual existiam: se encaixar. Desse jeito, formavam um grande quebra-cabeças que chamvam de vida.

Habacuc olhou pra tudo aquilo e pulou, olhando de relance pra trás para olhar o rei. Ele viu um sorriso naquele rosto que não soube entender.

No jogo, ele sentiu a música e as batidas, as luzes piscavam e ele pôde sentir tudo aquilo que todas as outras peças sentiam, regozijou-se com isso. Por um ínfimo instante sentiu que podia se encaixar e que o grande rei estava errado.

Lá dentro, Habacuc conheceu as outras peças. Haviam as coloridas, alegres e rediantes, haviam as em tons sépia, altivas e intocáveis e as preto e branco, bonitas e intimidantes. Haviam as peças que eram boas e as que eram ruins, e isso não dependia de como pareciam. No fim, ele se apaixonou por uma delas.

A sensação inebriante do amor tomava conta de todo o ser de Habacuc e ele queria sempre estar ali com ela. Fez de tudo para poder acompanhá-la em todos os lugares daquele jogo. Mas ele começou a perceber que não era uma peça, e não poderia mudar isso. Era estranho e anormal, sentia as coisas de uma maneira errada, muito diferente do resto.

Então ele começou a sofrer. No meio daquela escuridão brilhante que pulsava, aquele rapaz começou a sentir como se suas veias fossem cordões efêmeros do invisível, como se parecesse demais com as paredes para ser notado. Sentiu que não fazia diferença ali, não era um adendo, era um apêndice inútil. Por mais que sua peça o amasse, ela não podia evitar de estar com as outras peças, e nesses momentos ela o ignorava involuntariamente.

Habacuc começou a lamentar suas existência, se arrepender do dia em que pulou. O sorriso do grande rei voltava na sua mente, e ele sabia que não podia estar no jogo. Ele não se encaixava, não era ninguém. Não possuía ao menos uma cor, percebeu olhando para si mesmo, e era menos que qualquer outro ali dentro. Não era especial, não sabia fazer algo que o tornasse único e, portanto, um igual no meio da multidão.

Habacuc sorria, porque sabia que aquela peça que amava se entristeceria se o visse triste. Ele resistiu bravamente por muito tempo e sua felicidade era ver seu amor feliz.

Mas um dia...

Havia muita dor. Muita tristeza. E Habacuc subiu as escadas de volta pra fora do jogo, foi ficar lá em cima.

- Você tinha razão, não há como eu me encaixar ali. Não sou uma peça.

O rei sorriu aquele mesmo sorriso do princípio de tudo e perguntou:

- Mas então, porque você passou tanto tempo lá?

- Antes eu descobri as coisas, e isso me animava. Então eu amava alguém, e esse alguém passou a ser minha razão de existir.

- Mas você desistiu?

- Sim, meu alguém parou de me notar, me tornei um nada pra ele.

Então o rei de todos os jogos se pôs de pé e conduziu Habacuc até a borda do jogo.

- Veja - apontou para um das peças no meio do quebra-cabeças – Aquela sua peça se parece com você.

Habacuc se espantou. Segurou um fôlego de surpresa.

- Como pode ser?

- Você a deixou marcada, como uma parte sua. Ela te amou e isso bastou para que você nunca fosse algo irrelevante para ela.

- Mas como pode? Parecia tão...

- Era tudo fruto da sua cabeça Habacuc. Você se sentiu nada então se tornou nada. Mas não era assim para a sua peça...

- Mas não é possível! – ele se descabelou – Você me disse, eu não sou uma peça! Não faço parte...

O rei tocou o ombro do rapaz.

- Vou te dar isso como um presente, rapaz, porque gosto de você. Eis a grande verdade: todos são levados a acreditar nisso uma hora da sua vida, de um jeito ou de outro. Todas as peças pesam que não são peças. Fiam no meio do jogo fingindo o contrário, tentando convencer as outras de que são importantes, que se encaixam. No fim nenhuma delas é segura de tudo, e criam alegorias na sua mente para refugiar, buscam razões no jogo que as façam mais fortes para suportar a dor. Não há como existir sem dor Habacuc. Isso é ser uma peça.

- Mas então você quer dizer que eu sou...

- Uma peça. Exatamente.

Lágrimas correram de Habacuc. Ele deu um passo à frente ia pular de novo no jogo, dessa vez iria fazer direito. Queria aproveitar seu amor da forma certa. Iria fazer tudo diferente. Agora sabia que todos eram iguais. Agora...

- Não. – o grande rei de todos os quebra-cabeças segurou-o pelo ombro, com a força e a autoridade que lhe cabiam. – Só se pode participar do jogo uma vez, Habacuc. Seu tempo já passou.

- Mas agora eu sei! – ele protestou – Posso fazer tudo certo!

- Ninguém ali dentro – apontou o rei para seu jogo – teve esse benefício. Você não é melhor que eles, Habacuc. Não pode ter isso.

Então o rei conduziu Habacuc de volta para o lugar de onde veio, onde ele esperou a chegada de um certo alguém, meditando sobre o jogo.